Quando a Senhora vai fazer compras em Gênova

Marotta, Del Neri e Storari foram apenas os casos mais recentes de blucerchiati que viraram bianconeri

Marotta, Del Neri e Storari foram apenas os casos mais recentes de blucerchiati que viraram bianconeri

Artigo traduzido do jornal “Il Secolo XIX”. Para ver o texto original, clique aqui

A aristocracia do sangue e das ações implícitas na sigla da Fiat controla, desde 1923, a fortuna bianconera, quando Edoardo Agnelli, pai de Gianni Agnelli, “O Advogado”, assumiu a presidência. E os recém-chegados do time dos milhonários – por causa do dinheiro gasto de mão cheia na junção de 1946 – resultam virgens das cinzas da Guerra. Uma fusão curiosa, do nome então impronuciável (Samp-Doria? Ou DoriaSamp?) e da bizarra (para alguns, esplêndida) camisa cercada de azul, com o branco, vermelho e preto no meio.

A sorte de uma constantemente se encontra com as ambições da outra em um maldoso jogo de espelhos. E a recente imigração do trio Marotta- Del Neri-Paratici, que resultou tão indigesta ao presidente Riccardo Garrone (no domingo, Marotta foi “jogado” em um canto da tribuna de honra do Ferraris) teve vários precedentes. A Sampdoria dos simpáticos velhinhos de dom Eraldo Monzeglio, temporada 1960-61, começou pegando fogo: invicta até metade de novembro. Rosin, Vincenzi, Marocchi, Vicini, Bergamaschi, Bernasconi, Cucchiaroni, Skoglund e Brighenti, fazendo dançar o talentoso Bruno Mora, de 22 anos, com uma direita de rara elegância, um rapaz que fazia as moças delirar. A Juve de Umberto Agnelli, com Sivori, Boniperti (já terminando a carreira), Charles e Stacchini, insistia em levá-lo para Turim no outono, mas Alberto Ravano, presidente blucerchiato, resistia às falsas promessas. Um telefonema do honroso Folchi, poderoso sub-secretário da presidência do conselho com Fernando Tambroni e, depois, ministro do Turismo e do Espetáculo da Itália, lhe fez mudar de idéia. “Se quiser continuar embarcando carros da Fiat nos seus navios da Savona (cidade perto de Gênova), dê Mora à Juventus”. O conselho votou e Mora passou para a Juventus em outubro, junto com a obtenção total do defensor Benito Sarti, que saiu de Gênova para Turim em 1959, recebendo em troca de Severino Lojodice. Naquele ano, a Juve venceu o scudetto (seu 12º) e a Samp terminou em quarto lugar, seu melhor resultado até a chegada de Paolo Mantovani. Passado ao Milan, Mora venceu a Copa dos Campeões em Wembley (1963) e termina virtualmente a carreira por causa de uma terrível fratura (tíbia e fíbula), na colisão com o goleiro do Bologna, Giuseppe Spalazzi, em 12 de dezembro de 1965. Tinha apenas 28 anos. Faleceu sem sequer completar 50.

Em 22 de maio de 1966, os destinos de Juventus e Sampdoria tornam a se cruzar. Última rodada do campeonato, a Sampdoria da dupla Bernardini-Baldini lutava para se salvar. Em Turim, enfrentariam uma Juventus apagada, longe do título (terminou em quinto). Por que lhe faria algum mau? No banco bianconero, se sentava o comandante Heriberto Herrera, que espremia seus jogadores em intermináveis treinamentos físicos e os torturava à mesa com dietas à base de salsinha. Um duro que não conhecia amigos. Dez mil torcedores blucerchiati subiram para Turim. Gol de falta do brasileiro Chinesinho, da Juventus. Empate de Giancarlo Salvi, o garoto de Dego. Um rapaz de pés sobrenaturais. Menichelli deu a vitória à Juventus, com um potente tiro a 35 metros de distância, que o goleiro Pietro Battara apenas põde ver morrer no fundo da rede. Uma bola na trave de Ermanno “Bisontino” Cristin selou aquele dia de dor. A Sampdoria cai para a Serie B no vigésimo ano de sua existência. “Desaparecerão”, previam os primos, cheios de alegria. Doze meses depois, ao término de uma cavalgada triunfal, guiada pelo doutor Fulvio Bernardini, a Sampdoria retornava à elite. Anos depois o substitui no comando técnico o próprio Herrera, justiceiro sem coração. O presidente Mario Colantuoni vendeu à Juventus, em 1969, Francesco Morini e Bob Vieri, o pai de Christian Vieri, em troca de 800 mil (da moeda italiana da época) e Romeo Benetti. Meiões calçados, pés aveludados, mas autonomia limitada a uma hora por jogo, Vieri não tinha cabeça para respeitar os mandamentos da casa Juve. Foi para a Roma, para o Bologna e terminou na Austrália.

 

Gianluca Vialli trocou Gênova por Turim logo após a derrota blucerchiata na final da Copa dos Campeões de 1992

Gianluca Vialli trocou Gênova por Turim logo após a derrota blucerchiata na final da Copa dos Campeões de 1992

Em 22 de maio de 1977, a Juve desce ao Ferraris, para conquistar seu 17º scudetto, vencendo a Sampdoria de Bersellini (2 a 0, gols de Bettega e Boninsegna), já quase condenada à Serie B. Pela segunda vez contra a Sampdoria a Juventus se veste de carrasco. Depois de cinco anos de purgatório, a vingança. Primeira rodada do campeonato, 12 de setembro de 1982, um gol do lateral Mauro Ferroni domou a Madame. “O Advogado” não renunciou à idéia de contratar Roberto Mancini. “Se Roberto não joga, não me divirto”, brincava Mantovani, blindando sua jóia. E Vialli se roía o fígado. As especulações da “Gazzetta” (meia Sampdoria já especulada para ir para Turim) tiraram o sossego da gente blucerchiata. Mantovani, enfim, cede Vialli à Juventus, no dia seguinte à humilhante derrota em Wembley em 20 de maio de 1992. E Vialli vence na Juve aquela Copa, em 1996, ouvindo que, com a Sampdoria, apenas passou perto.

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